Essa ele conhecia de tempos. Foi numa dessas doidas andanças das quais já havia algumas na sua vida. Numa bebedeira em Portugal, há um par de anos atrás, ouviu um amigo seu dizer: “Aquela ali é mó gata! Irmã de Nivaldo…”. Ele podia ter pensado sobre as hipóteses horrorosas que envolviam o nome dela – “pra fazer par com o nome do irmão, não é bonitinho? “, a frase que algum idiota lançou –, mas, sem perder tempo com essas divagações, foi dar com o olhar exatamente na parte que seria a sua preferida nela dali pra frente. É certo que aquele era o auge dos seus seios. Não a época, num sentido temporal, mas sim aquele momento: o exato momento em que via pela primeira vez aqueles seios, o direito sustentado pelo que parecia um girassol vermelho com seu centro um pouco acima de onde estaria seu mamilo, o esquerdo seguro pelo bojo todo branco. A parte boa foi que não houve tanta surpresa quanto ao nome. Nyrayana é um nome quase comum e, não se prendendo a estritos conceitos estéticos, até bonito.
Depois da pergunta tentando engatar uma conversa “é com I ou com Y?” e “onde vai o I ou Y?”, da noite não lembrava mais de nada. Eram bons tempos em Portugal, com dinheiro para tragos infinitos e nenhum compromisso com a sobriedade.
Essa foi a vez que conheceu Niraiana (talvez os I´s se dispusessem desse jeito). Ela bem desagradada por ter conquistado o tesão de mais um bêbado, e ele, que acordou no dia seguinte preocupado se tinha estragado tudo de novo. A única certeza era a de não ter causado uma boa impressão.
Como a cidade era um ovo e estar com portugueses não era opção, foram se esbarrar outra vez num forró de brasileiros. Dessa vez estavam no ambiente onde sabia mexer as peças, pois era muito bom em fingir que sabia dançar e em criar histórias fantasiosas sobre shows que tocou, festas de artistas doidões que esteve e essas coisas diferentes que pessoas gostam de ouvir. Isso lhe valeu uma semana vivendo com Nirayana (talvez aí fosse o Y).
Dessas maluquices da vida, foi uma semana sem comê-la. Entre vergonhas e menstruações, conseguiu, e muito mal, uma ou duas punhetas, além de umas sacanagens com os seios dela, que, por ser um bêbado contumaz e, agora pra piorar, um bêbado cheio de tesão retido, andava ainda mais bêbado por essa semana e pouco lembra dessas sacanagens leves.
De todo modo, a parte que vale a pena contar da história é quando, passados uns 4 ou 5 anos, Péricles e Nyraiana (com a ajuda do Facebook descobriu onde o maldito Y ia) retomam contato. Logo o rapaz descobriu que isso se deu porque ela havia acabado de sair dum malogrado namoro-casamento de 3 anos com um portuga. E constatou que ela estava carente quando, após algumas mensagens na madrugada, com obscenidades leves e trocas de carinhos, lhe disse que comprara uma passagem pra São Luís do Maranhão. Péricles morava na Ilha do Amor, e, em todo o tempo que esteve ali, poucas vezes viu gente do Rio de Janeiro empolgada com a ideia de pegar 4 horas de voo rumo ao Norte do país.
Passaram a noite de chegada dela juntos, e a mulher continuava a mesma: fisionomia, seu interesse por assuntos triviais, roupas, os tais seios ainda ali, achava que até o mesmo vestido do girassol vermelho, sua alegria ao citar alguma reflexão pobre e supostamente profunda sobre a vida, seus odores, tudo na mesma…
Mas, no meio disso tudo, havia algo em que Péricles nunca havia reparado nela. Aqui vou dar um salto rápido para uma conclusão a que ele chegou ao fim da história, pra depois seguir normal com ela. Assim fica mais interessante. Péricles havia percebido que toda mulher muda sua fisionomia ao se desnudar pro sexo. Além de tudo mudar, até porque a maior parte estava escondida, e tudo que se revela é novo, a cara, que era pra ser a mesma, se transfigura. Você nunca come a mesma mulher que viu na rua ou que esteve contigo poucas horas atrás no bar. No comportamental é óbvio, mas aqui Péricles havia chegado à conclusão de que a mulher também não preserva suas feições, seus traços, suas expressões. Ela se muda pra que a nova cara combine com o novo corpo que se apresenta. Como se a cara antiga só combinasse com ela vestida, e que o momento de entrega exigisse outra pessoa. Tirar a roupa pode significar se despir da pressão social sobre si. Ser mulher é difícil à beça, e nesse momento ela consegue ser ainda mais mulher e com menos gente julgando. Quando o corpo nu, levemente menos bronzeado do que o resto, e a cor avivada do rosto por conta do balanço sanguíneo no corpo se harmonizam, o que surge é uma nova mulher, que já não pode se apresentar com seu rosto conhecido. A mudança depende de cada uma, mas sempre há.
Ou quase sempre… Porque Péricles está levantando o vestido de Nyraiana, e seu rosto é o mesmo de quando conversavam sobre o custo de vida no Brasil; Péricles está chupando seus seios enquanto arria sua calcinha, e sua cara é a mesma de quando falavam sobre mulheres que gastam muitos reais em sapatos; ele puxa seu cabelo ainda em pé enquanto afasta suas coxas, e suas feições não variam da que tinha quando concluiu que as pessoas não diferenciam paixão e amor, e por isso sentem ciúmes; ele apoia as costas dela na parede enquanto a levanta e dá a primeira forçada, aquela com a qual se diz “tô dentro de você!”, e ela ainda com a mesma cara… Péricles se estranha daquilo, apesar de essa foda ser tão boa quanto uma foda que é esperada há 4 ou 5 anos deveria ser. Mas, de certo modo, era como se estivesse fazendo sexo com corpo e cabeça desajuntados, mal colocados na mesma cena, que se mexessem separadamente.
Péricles já havia gozado, com a consciência de que sua própria cara, sim!, estava distinta da que carrega todos os dias na rua. Estava perto de gozar de novo, quando viu Nyraiana mudar suas feições. E aqui aconteceu algo ainda mais estranho, porque a cara de Nyraiana tinha mudado pra uma que Péricles tinha a certeza de já ter visto. Um déjà vu facial. Não com tanta frequência quanto as outras expressões, mas dessa vez um rosto que de certo modo previra que ela faria naquele momento. Um relance de dor. É isso! A cara que ela fez em algum momento leve de dor. O instante que faria toda aquela trepada fazer sentido, a estranheza do corpo novo/nu se harmonizando com o rosto novo/nu dela, foi destruído pela previsibilidade.
Findo o sexo, cada um pro seu canto. Péricles, no dia seguinte, chama sua fodinha certa pra se certificar de que o mundo ainda fazia sentido.