Vivendo Las Vegas

contos de viagem

Em mais uma dessas andanças pelo mundo, Péricles foi parar num deserto esquisito no meio do Estado de Nevada, Estados Unidos, com paisagens desoladoras, um clima triste e seco, vegetação nada inspiradora, e pedras sem alegria por todo lado, além de prédios gigantes com formatos variados e inovadores, letreiros ultra-piscantes desesperados por atenção e carros luxuosos tocando hip-hop no último volume. Esse deserto se chamava Las Vegas, a última cidade antes de sair da aridez massiva que é o Estado de Nevada.

Sua primeira impressão, como o próprio lugar sugere, foi de desolação e desapontamento. O ônibus que vinha do aeroporto passeava pela cidade em velocidade de cruzeiro, provavelmente para que se pudesse apreciar a paisagem, e, conforme andava, parecia haver cada vez menos a ser apreciado. Horizontes vazios no meio do deserto, com árvores que não passavam de 50cm de altura, quando muito, com galhos e caule muito retorcidos, rochas sem encanto algum, e poeira, poeira e mais poeira. Como passatempo, Péricles ficava a procura de lagartos, ratos esquisitos, cobras e todos aqueles animais que se vê em filmes da TV. Nenhum foi o que ele encontrou.

Dessa vez, Péricles resolveu se alojar num hostel com clima festivo que havia encontrado na intenet. E foi tiro certeiro. Na entrada só mostrava o mesmo ar de desolação que todo o resto da cidade, mas a sensação de que passaria um ótimo tempo enquanto lá bateu logo. Um pátio gigante, de espaço tão amplo a ponto de não se ver tão bem o final, uma placa indicando que no club da frente havia nudez diária (“nude daily”, logo abaixo de um letreiro gigante com a palavra “strippers”), uma mesa convidativa à velha prática da beberrança, pessoas jovens por todos os lados e um maravilhoso rock´n roll quase hard core tocando nos speakers em bom volume. E, cercando esse pátio nas 3 laterais, quartinhos que se assemelhavam a chalés simples mal pintados de azul. Chalé talvez dê a impressão errada. Eram mais bangalôs de quarto-banheiro com portas velhas e janelas que não abriam, também pintadas de azul-sem-vida. Ou seja, um hostel mais parecido a um desmanche de carros, sendo extremamente convidativo sem aquela parafernália decorativa que hostels costumam adorar.

O fato interessante foi que, numa nova incrível coincidência, em Las Vegas Péricles e eu nos encontramos. A surpresa foi já não tão surpreendente assim, vista a enorme quantidade de vezes que esse esbarrão já aconteceu por aí, e as sempre presentes grosserias e xingamentos à mãe do outro. Creio que, assim que nossas mães morrerem, não iremos deixar um ao outro inteirado do fato para que não se perca esse delicioso cumprimento.

A biritagem começou cedo. Não, começou foi imediatamente, dado o ambiente propício para isso. Todos se ofereciam bebidas mutuamente, num claro esforço para que mantivéssemos a mesma onda de embriaguez. Após os dois primeiros copos de vodca com cranberry (que soa muito mal ao ouvido, mas que é a bebida mais barata de Vegas), fomos eu e Péricles à conveniência da esquina, uma rede dos EUA que merece um texto a parte, ou talvez um adendo aqui no meio desse texto mesmo, se der tempo. A ida até lá foi motivada pela urgência que eu senti em mostrar a ele a grande nova descoberta etílica. Uma bebida chamada Four Loko.

Por que tão incrível essa bebida? Ela responde maravilhosamente ao trinômio “(quantidade x teor alcoólico) / preço”. Uma lata de 750mL, com 12% de álcool, por $3. Com o único porém escondido de ser também uma bebida energética. A bebida sofreu um recall há quatro anos atrás, pois o governo estadunidense achou que os níveis de cafeína altíssimos misturados ao teor alcoólico não era algo saudável. Ou seja, um verdadeiro encachaçamento dessa bebida pode provocar uma parada cardíaca. Se seu coração for assim tão fraco, claro. No nosso caso, viajantes de longa data, começamos ali mesmo a entornar o Four Loko.

Uma espécie de tradição vetada com algum rigor em Vegas é a invasão das festas na piscina de hotéis-cassino ultraluxuosos. Os estadunidenses tem leis estritas com punições bem rigorosas, e, creio que por achar que isso é o suficiente para evitar que idiotas tentem fazer coisas ilegais, acaba por ser bem simples burlar essas leis. E, após uma disfarçada no bar do hotel-cassino e observação do movimento dos seguranças, estávamos dentro da festa.

O tema festa em países da América do Norte e da Europa é assunto sensível para brasileiros e países de terceiro mundo que tem liberdade para se divertir. Mas, com a ajuda das 3 latas de Four Loko na cabeça e as vodcas, Péricles e eu entramos no clima da música eletrônica, vôlei de gente bêbada e ambiente de festa do American Pie, o filme. Talvez as mulheres super deliciosas tenham ajudado nesse processo, já que, se elas tinham $400 para pagar por uma noite naquele hotel, é imaginável o quanto elas investem nos seus corpos.

Finda a festa, voltamos para o hostel para embeber nosso cérebro em mais álcool, preparando-se para a próxima atividade cultural promovida pela hospedagem: uma ida de limosine open-bar até o coração de Vegas, também conhecida por “The Strip”, e entrada num club de outro hotel-cassino de luxo extremo. Dessa vez não precisamos burlar nada, mas algo me diz que aquele club mais a limusine e mais o open-bar não podiam somar os vinte dólares pagos. Só uma bebida dentro do club custava $12. A mais barata! Mas ficou só a impressão mesmo.

Outro ponto interessante nas festas do povo do Norte é que eles estipulam uma espécie de lei mínima de vestimenta para entrar (“dress code”, na língua desse povo dos EUA). Ou seja, antes de entrarmos na limosine, o rapaz que guiava a gente fez uma investigação nas nossas roupas, com o objetivo de que não fôssemos barrados na porta. Como viajantes/mochileiros/andarilhos, eu e Péricles fomos reprovados nessa investigação, porque não tínhamos roupa propícia para a ocasião. Nada que o hostel não tivesse para emprestar. Estávamos vestidos e fomos para o open-bar dentro do carro.

Chegando no club, aconteceu o que já era previsto: o lugar era horrível. Então montamos um grupo para uma piração mais old school, com música boa e bebida barata. Não antes de termos tomado proveito dos drinks grátis que, sabiamente, a organização do club dava até certa hora.

Um filipino que estava conosco surgiu com a ideia pro primeiro movimento do grupo: sentar numa máquina de apostas do cassino e esperar que as garçonetes trouxessem as bebidas grátis. E isso servia para qualquer máquina de apostas (existem algumas de 1 centavo), ficando o seu suprimento de bebida dependente apenas da gorjeta dada. Pelo sorriso das mulheres que passavam com a bebida após receber as gorjetas de $5 que eu deixava, tive a impressão de que uma de $20 garantiria uma foda e talvez até um casamento. E $1 te renderia uma cara feia, como o filipino pôde perceber.

Após uns 3 ou 4 gorós, o russo do grupo sugeriu que fôssemos pra um lugar com salsa, latinas, dança e mais goró. A maioria das pessoas que ali estavam pareciam ter vindo também dos clubs que exigiam o tal do “dress code”, mas grande parte só estava com a parte debaixo da vestimenta. O que não demorou para acontecer também ao nosso grupo, exceto por mim, que fui impedido pelo segurança. Isso era impróprio, já que eu era um gordo unusual (nas palavras dele). Compreendo…

A festa foi caminhando para seu ápice, que no nosso caso significava quando as coisas começaram a ficar enevoadas e sem muita conexão lógica, quando vimos Péricles se metendo numa briga. Ele tava mexendo com a garçonete, que era a garota de alguém no bar. Pelas histórias que Péricles conta, e pelas experiências anteriores que tive com ele, sabia que o rapaz não era muito bom de briga. Não deu diferente nessa. Alguns de nós tentamos intervir, mas uns sopapos dados por portorriquenhos com o dobro do nosso tamanho nos impediram. A surra misturada ao álcool no sangue dele fez com que cuidados hospitalares fossem necessários.

Aqui mais um ponto interessante sobre os EUA: nós estamos acostumados a serviços concedidos pelo governo, mesmo que se possa questionar a qualidade deles, mas o governo existe para a população de alguma forma. Nos EUA é cada um por si, literalmente, e quando você fala que é esquisito não haver serviço de “saúde gratuita”, os estadunidenses chegam a estranhar essa expressão (Atualização: parece que o tal Obama Care veio pra mudar isso, se é que já não mudou). Consequência disso é que uma ida de ambulância ao hospital custa dois mil dólares, além do custo do próprio hospital. E os moradores de rua tem dívidas gigantes com o governo, já que às vezes é inevitável que uma ambulância apareça para catá-los, e a dívida nunca será paga.

Explicado isso, o fato de a gente ter posto Péricles dentro de um táxi, todo ensanguentado e inconsciente, já não parece mais tão estranho. O nosso grupo era de uns 7 guests do hostel, mas também não pareceu estranho o fato de cabermos todos dentro de um táxi. Não naquele momento.

No dia seguinte, ao acordar, encontrei Péricles no grande pátio do hostel dizendo que tinha perdido todo seu dinheiro e não estava entendendo bem o motivo de ter acordado sozinho num quarto de hospital. Disse que só se lembrava de estar sóbrio dançando salsa e, de repente, acordou lá. E não tinha nem certeza de se havia recebido alta ou não. Nos EUA, existe uma cultura muito forte do “faça você mesmo”. Então é normal que, nos estabelecimentos, às vezes não tenha nem sequer uma pessoa que trabalhe ali. Péricles se levantou e saiu pela porta. Confuso, mas sem ser incomodado.

Ao lado dele estavam um chileno e um eslovaco que faziam parte do nosso grupo e que, pelo risinho confidente que davam um ao outro, percebi que a pegadinha era deixar Péricles sem entender nada mesmo. De certo modo eu também gostaria de uma explicação, já que não sabia como tinha ido até o hospital e voltado antes dele voltar a si.

Também descobrimos que o russo, o filipino e mais um tinham sido presos. Em Las Vegas existe um site onde você pode consultar se alguma pessoa foi presa. Curiosamente, eles foram parar em cadeias distintas. O russo, um pouco depois, já tinha voltado para o hostel e contou que, durante a briga, alguém algemou ele. Passou algumas horas na cadeia e foi liberado. Ficou esperando o horário do ônibus, porque também havia perdido seu dinheiro e o celular. Não sabe muito bem se perdeu o dinheiro ou se teve que pagar a algum policial. Andam dizendo no hostel que os crimes do filipino e do outro foram mais graves, envolvendo invasão de domicílio ou algo parecido. Pelo valor da fiança, parece que hoje seremos só cinco na rua mesmo.

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