O melhor de dois mundos, como dizia naquele filme da Hanah Montana. Uma cantora pop super famosa que botava uma peruca e vivia como uma garota anônima do subúrbio. Ela tinha o melhor de dois mundos para si. O que não tem muita importância pra história que será contada, mas dá uma ideia do que Péricles sentiu quando soube que existia uma trilha com vários alambiques de cachaça pelo caminho, lá pelas ilhas de Cabo Verde.
Já no quarto bar, com a conta perdida de quantos grogues tinha tomado, Péricles brindava mais uma vez a essa maravilha. Lembrava bem de quando lhe contaram a respeito: você vai subir a montanha mais alta da ilha, descendo por um caminho bem pesado, mas bem pesado mesmo, e vai ver uma porção de alambiques de grogue. Grogue é uma bebida tipo a cachaça. Parecia surreal a proposta. Trilha e grogue combinam demais, já que grogue vai bem com quase tudo nesse mundo. Mas ele nunca havia descido uma montanha que fosse ao mesmo tempo um pub crawl. Rastejaria fácil de um bar pro outro, principalmente na descendente.
Ao descer da vanzinha que o levara pela estrada até perto do topo da tal montanha, abria-se um enorme campo de plantação de milho. Um paredão de rocha se levantava à sua frente, e foi esse paredão que Péricles teve que vencer para alcançar o ponto mais alto da trilha e iniciar sua descida. Do outro lado nada se via. Estava no meio das nuvens. Nada pra cima, nada pra baixo. Visibilidade de uns poucos palmos; um cinza chapado como se fora uma parede.
Normalmente as reminiscências dos bêbados são de tempos já idos há muito, envolvidas em remorso e arrependimento. Mas a euforia que sentia por ter embarcado nessa e estar ali enchendo a cara de grogue, de sanfona a tiracolo e as pernas imersas na dor, em briga constante com a anestesia etílica, era tão imensa que só o que conseguia rememorar eram seus passos até ter chegado ali no quarto bar.
Pelo primeiro bar, por sinal, quase passou sem vê-lo. A névoa era tamanha que só se deu conta de estar perto quando sentiu o odor ocre-ácido do álcool misturado ao cheiro úmido que o rodeava em meio àquele cinzaral espesso. Havia cana no ar. Olhou pra esquerda e lá estava a construção de madeiras verticais de uma janela e uma porta que só se diferenciavam, as duas, pelo tamanho mesmo. Dois buracos, pelos quais mal se vislumbrava o interior. Nenhuma lâmpada acesa; lá dentro a escuridão da casinha provocada pela falta de luz natural se misturava ao cinza aguado que se estendia por todos os lados, dentro e fora do bar. Bar, bar mesmo, não dava pra dizer que era. Mais tava pra uma antessala duma construção triste, sem dar a percepção de que havia mais coisa lá pra trás.
Gritou uma vez: “Grogue!”. No segundo grito, ouviu um “Ei!” viajando dos fundos até sua orelha, bem baixinho, mas o suficiente pra deixar a boca salivando na antecedência do primeiro gole do dia. Lá vem o senhor, pele mais negra do que a dos cabo-verdianos das outras ilhas que vira até então, idade relativamente avançada, a pele das bochechas colada aos ossos, e olhar de pouca vida. E bonito, como é de praxe por essas ilhas. Vinha pela porta dos fundos, que dava para um ambiente aberto, porém absolutamente cinza no momento. Antes de se aproximar, catou o galão que estava no chão, deixou o ambiente todo cheirando a cana ao retirar a rolha, e encheu dois copos. Um gesto repleto de automaticidade. “Tud dret?”, lançou à Péricles já lhe entregando um dos copos e brindando. Movimento que foi seguido de uma engolida num trago só. Péricles o imitou, respondendo então num brasileiro de sotaque caboverdianizado, tentativa levemente risível de imitar a sonoridade local: “Tudu dereti!”, enquanto o senhor já enchia os copos novamente. Vogais no fim das palavras. Como falar sem vogais pra acentuar o fim das palavras? Brasileiros não compreendem isso. Entendeu ele que a conversa fora autorizada a começar.
Estava fazendo a trilha do Vale do Paúl, na ilha de Santo Antão, montanha abaixo, e interessado sobre os alambiques dali. O senhor-produtor, apesar de ter o criolo como língua-mãe, aprendera português na escola, e respondia a curiosidade de Péricles em sotaque aportuguesado europeu. Tentava lembrar agora o que fez a cana-de-açúcar proliferar tanto ali naquele lado da montanha, mas quatro bares depois e “deve ter sido pra mais de cinquenta copos de grogue”, não conseguia mesmo encadear logicamente a explicação semi-técnica que recebera do senhor ainda no início da trilha.
De todo modo, lembrava que tomaram umas muitas entre o passeio pela pequena plantação de trás da casinha e conversas sobre o processo de feitura. Impressionava o senhor fazer tudo sozinho, inclusive as entregas pros bares da vila principal da ilha. Teve que dar uma dedilhada na sanfona antes de ir embora, por insistência.
Lembrou-se da sanfona e lançou uma versão chorosa de Sodade, da Cesária Évora. Os bêbados ao redor fecharam os olhos e cantarolaram para si baixinho, com a reverência e a altivez que só o álcool traz. O quarto bar era um ótimo descanso após a loucura do terceiro. O instrumento sobre suas pernas, que doíam mesmo encharcadas de álcool, o lembrava de como a trilha tinha sido extremamente pesada até então.
Ao sair do primeiro bar, a névoa já se dissipara e o sol de pouco antes do meio-dia enchia seu corpo embebecido de vigor e plenitude. Começar cedo sempre traz essa sensação de permanência do tempo e invencibilidade. Agora podia ver o Vale do Paúl aberto à sua frente. Formava como uma caldeira, a montanha envolvendo pelos dois lados a vila bem lá embaixo, os braços (da montanha, claro) diminuindo de tamanho até chegarem bem perto do mar. O sol vinha de trás, projetando a sombra do cume por sobre as casinhas, só para deixar tudo mais bonito. Encheu-se de ar e sentiu a vida no seu máximo. Caminhou com intensidade.
“Sodade de nha terra San Nicolau”, e terminou a música num fade out bem suave. Já tinha parado de tocar, mas ainda se sentiu a canção no ar por alguns minutos. O barulho de um copo levado a boca rompeu com a melancolia hipnótica que ali se instaurara. Cesária Évora… Uma ex-prostituta, se lançou ao mundo com sua voz e fez até Obama e Sarkozy lamentarem a sua morte. Hoje ela protagoniza a nota de 200 escudos cabo-verdianos. A diva dos pés descalços, que cantou a saudade e nos deixou a todos com ela.
O clima no quarto bar era de fim de uma festa que jamais começara. Meia dúzia de criolos, à parca iluminação do bar, dando sinais de vida apenas quando a música do Péricles começava. Sinal de vida esse que se resumia ao quase imperceptível levantamento do copo brindando à música. Provavelmente mal tocada por sinal, pelo jeito que estava difícil manter a cabeça em pé. Péricles não duraria muito; e nem na metade da trilha chegara ainda.
Ah, o terceiro bar. Sangue, lágrimas, suor, um bocado de música e muita diversão. O bar estava cheio, era o mais amplo e mais com cara de bar até o momento; o grogue definitivamente o mais delicioso, e a dona era muito gente boa. Ainda que tenha resolvido expulsar todo mundo no auge da diversão. Não pra ela, claro. Quem gosta de ter seu bar quebrado por uma horda de bêbados?
Até pontxi havia, uma mistura de grogue e frutas, de gosto licoroso e “é bebida para mulher”. Não naquele bar, pelo visto. O único a tomar pontxi foi Péricles, para experimentar. Mas o sabor doce não combinava com o clima de dança e festa que se instaurou. Não sabia como estava o bar antes, mas depois que a sanfona chegou, foi uma alegria que só.
Espero que esteja claro até aqui que todos os personagens que aparecem nessa história eram lindíssimos. Cabo Verde é o país da gente mais bela do mundo e ponto.
Dançavam em pares, em grupos, sozinhos. Era funaná, era morna, era samba, forró, uma grande miscelânea dos dois lados do Atlântico. Copo sempre cheio, o açúcar do pontxi já havia sido lavado pelo amargo do grogue novamente; e Péricles estava feliz. Aquele momento da biritagem em que o sujeito é absolutamente imbatível, incrivelmente sedutor e possuidor de vasta sabedoria sobre todos os assuntos possíveis.
Não se lembra em qual música foi, mas foi numa brasileira com certeza. Algum dos bêbados resolveu que o clima era de completa libertinagem e tomou liberdades que claramente ultrapassaram uma linha. E foi como se uma tribo de amazonas guerreiras resolvesse acabar com tudo. As mulheres todas se jogaram contra o homem e seus amigos, o que gerou uma porradaria generalizada. Péricles não entendeu como começou, mas ô povo lindo brigando. Corpos altos, carnudos, mãos grandes e perfeitas dando um na cara perfeita do outro, as cores de suas roupas formando um caleidoscópio cromático, tudo se embaralhando… e foi aí que Péricles resolveu se levantar, pois imbatível era naquele momento.
Foi a própria dona do bar que lhe desferiu um soco o colocando de volta em seu lugar.
Ali ficou. Sorte igual não teve a sanfona. Uma cadeira voou com força sobre ela. Escoriações de leve em Péricles, mas o si bemol da quarta oitava jamais votaria a funcionar.
A dona derrubou mais dois, quebrou uma garrafa na cabeça de mais um e, com o vidro quebrado, garrafa partida ao meio, ainda escorrendo um pouco de grogue, subiu numa das raras mesas que restaram de pé e mandou todo mundo embora. Ou melhor, todo mundo que não fosse pernoitar por lá, já que ela também alugava quartos. Autoridade inquestionável.
Beleza e adrenalina juntos. Não foram três nem quatro casais que se formaram na hora e resolveram ficar por ali mesmo. Um dos homens, agarrando outro por trás, beijando o seu cangote liso e perfeito, foi a cena que deixou Péricles com mais tesão. Tudo era lindo naquele lugar.
Desceu para o próximo bar levando uma procissão de uns cinco senhores e senhoras que não queriam amor, e sim continuar bebendo. Ao som de A Dama de Vermelho. Fidelidade total ao álcool. E a noite parecia boa pra continuar.
Péricles olhou em volta no quarto bar. Já se passara um bom tempo que estava por lá. Muitos casais já se haviam formado. Cenas prosaicas ao redor, como aquela moça com uma das pernas sobre o colo do cara, engorfando mais uma dose de grogue, pernas abertas e sua calcinha aparecendo despudoradamente. Imaginou a cena desenhada pelo Crumb, aquele homem que sabia bem como desenhar formas arredondadas do corpo humano. Apesar de que, ali, provavelmente só daria atenção às bundas volumosas e formosas das caboverdianas; velho tarado.
Entoou mais uma, nada de lamúrias, uma coisa animada para não deixar a noite acabar. Sang de Berona foi a música escolhida. Como ato de valentia, virou duas doses de grogue. A animação do Péricles era levemente desproporcional ao clima do bar, mas ainda havia aqueles três pinguços resistindo. Pediam música, dançavam em dois, dançavam em conjunto, claramente rumando para uma nova confusão. Aquele cara certamente ia pensar que estava se formando uma suruba com as outras duas. Pensamento típico de bêbado. E a porrada começaria de novo. Péricles conseguia tocar sem o si bemol, mas não estava afim de perder mais teclas.
Desceu mais duas e rumou para o quinto bar. Essa distância era mais longa e ninguém veio com ele dessa vez.
Doze casas subiram os Cavaleiros do Zodíaco para salvar Atenas e o mundo. Já o objetivo de Péricles aqui não era nem um pouco nobre: queria beber e completar a trilha. Não sabia quantos bares eram, mas era descida. Adoraria que tivesse uma bela donzela no fim de sua saga, mas parecia improvável. Duvido que se tivesse álcool na casa do Mu de Áries algum cavaleiro teria continuado morro acima.
Improvável também era conseguir chegar ao quinto bar. Olhando dali, não havia luz nem nada para indicar se estava perto. E precisava vomitar primeiro. A vantagem da estrada de terra é que o vômito é absorvido logo em seguida.
Então veio o sono pós-regurgitada; sempre pontual e sempre fatal. Deu cinco passos, acomodou sua sanfona, pôs a cabeça em cima do fole e, com o dedo sobre o faltoso si bemol, adormeceu.
A dona do terceiro bar, senhora de muitas qualidades, porradeira, esplendorosa e, a maior qualidade de todas, dona de um bar, descia pela trilha rumo à vila. Imaginava que o dia seguinte seria de muito trabalho para limpar os quartos após as imundícies que aqueles bêbados briguentos e cheios de lascívia aprontariam. Trancara o armário de bebidas lá em cima, subira em sua moto e fora para a vila descansar.
Bêbados dormindo no chão nos inspiram pena. Especialmente quando dormem ao lado de uma poça de vômito. Reconhecendo o sanfoneiro brasileiro que ingenuamente pensou em tomar parte na confusão no seu bar, imaginou que ele precisava de uma carona. Foi difícil acomodar a sanfona e o bêbado numa moto juntos, mas conseguiu. Largou-o numa pensãozinha qualquer ao fim da trilha, pensando na justiça própria inerente ao grogue, que não deixaria passar incólume um aventureirozinho qualquer.